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Literatura e Escrita

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Topic: Excerto de DEIXA QUE O AMOR SEJA A TUA ENERGIA
Era tão estranho, quanto o poderia ser, ver chuva às portas do Verão. As
gotas grossas batiam no pára-brisas do carro, esborrachando-se e multiplicando-se em gotinhas pequenas.
O calor... esse continuava.
Ali estava eu, ao volante, sozinho no interior de um Megane Coupé vermelho
que não era mais que um de muitos veículos parados na ponte Vasco
da Gama. Ia a caminho de Alverca, onde deveria treinar ao fim da tarde.
Saíra cedo de casa com a ideia de passar pela dos meus pais em Lisboa.
Mas com aquele engarrafamento, teria de ir directo a Alverca.
O rádio tocava uma balada temporariamente nos tops. Quando andamos
muito de carro e às mesmas horas, acabamos sempre por ouvir as mesmas
músicas. E as escovas que limpavam o vidro, faziam um som cadenciado que
acompanhava a música.
O carro da frente andou dois metros e o meu também.
Solitário naquele pára-e-arranca, dei comigo a pensar na vida...
Desde pequeno que o meu sonho era ser jogador de futebol. Acho que
desde o primeiro dia em que chutei uma bola que o meu destino ficou traçado.
Lembro-me de com três anos andar atrás de uma bola de plástico atirada pelo
meu pai nos relvados do Estádio Universitário. Ainda guardo algumas fotos
dessa altura, eu com a minha mãe e o meu pai a bricarem comigo, fazendo-me
sentir no meu mundo de três anos que era um “febelista”.
A minha irmã é que não gostava de futebol. Ainda hoje não gosta...
Mais uns metros para a frente e nova paragem. A chuva caía e continuava
a cair.
Desliguei o rádio e fiquei a ouvir as escovas com o coro de buzinas dos
mais impacientes. Peguei no telemóvel e liguei ao meu pai.
─ Pai! Tás bem... A mãe?... Ainda bem. E a Manuela?
A Manuela é a minha irmã que sempre detestou futebol.
Era dois anos mais velha que eu. Advogada conceituada, sócia de um
escritório de três com bastante sucesso no meio. Divorciada de um marido
problemático e mãe de uma menina linda de seis anos, a minha sobrinha
Cibele.
Depois do divórcio, Manuela voltou para casa dos meus pais com a Cibele.
Tornara-se a forma mais confortável de ultrapassar a situação e de ter quem
cuidasse da pequenina na sua ausência.
─ Hoje não vai dar para passar por aí. ─ disse eu.
─ Nem para jantar? Temos muitas saudades tuas. ─ insistiu.
─ Vou tentar...
Tinha saudades de todos eles. Desde que comprara casa em Alcochete
que raramente os visitava. Telefonáva-lhes quase todos os dias, mas só isso
não chegava.
Olhei para o relógio e fiquei impaciente, pois dentro de uma hora tinha de
estar no relvado do Alverca a treinar.
Lembrar-me que tudo começara há dezoito anos...
Tinha nove anos quando o meu pai me levou aos treinos de captação
do Atlético. Tudo porque eu não me calava que queria jogar à bola. E numa
manhã de Sábado, o meu pai leu n’A Bola que no dia seguinte pela manhã
aquele clube ia fazer as provas.
Sempre desejara jogar no Benfica, mas havia que começar por algum
lado. Parece que foi ontem. Eu com uma camisola “10” da selecção nacional,
que o meu pai comprara na feira de Carcavelos, e onde a minha mãe cosera o
nome do Futre, o meu ídolo na altura.
Acompanhado pelos meus pais e pela minha irmã, lá fomos ao campo do
Atlético, lá para os lados de Alcântara.
A primeira visão foi assustadora. Havia tantos putos da minha idade e
mais velhos no relvado, distribuidos por meia duzia de treinadores que parecia
quase uma lotaria ser escolhido.
Os meus pais desejaram-me sorte, naquele tom paternal de quem diz “vai
lá e não fiques triste por não ser escolhido”. A minha irmã continuava agarrada
a duas barbies louras a quem mudava sucessivamente de vestidos e fingia
que andavam, fazendo-as dar pulinhos.
Fizemos várias provas, conforme nos iam indicando os treinadores. Cerca
de uma hora em fintas, habilidades técnicas e um sem numero de coisas que
supostamente nos avaliariam. Ao fim daquele bocado, a rapaziada voltou para
junto dos familiares e amigos que os tinham acompanhado.
Os técnicos reuniram-se alguns minutos no relvado, isolados dos putos barulhentos.
Alguns rostos infantis denotavam a ausência de esperança de ficar, outros vangloriavam-se de já estarem garantidos. Eu mantive-me impávido, olhando
para os individuos de fato-de-treino, mal sentindo as palmaditas nas costas dos
meus pais e os “foste muito bem” e “parabéns” e “estamos muito orgulhosos
de ti”.
Um deles afastou-se do grupo e dirigiu-se a todos nós. Parou de forma a
que todos o pudessemos ver e escutar com atenção. Deu os parabéns a todos
e lamentou o facto de só poder escolher alguns.
Sentia as pernas a tremer e um nó na garganta. O homem de boné da
Adidas com o emblema do clube, segurava um bloco no braço esquerdo e
seguia os nomes da lista com uma caneta que empunhava com a mão direita.
Começou a chamar o eleitos.

mais em nunotavares.com
Feb 13, 2009
7:35 AM


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